sábado, 21 de junho de 2008

Do lar alheio.

Jogavam incompreensivelmente aquele emaranhado de cartas que parecia significar nada. Algo mais estava envolvido naquele ocaso, a falta relações aparentes pouco a pouco se revelava falsa e demonstrava ser algo mais profundo. Conhecendo as pessoas que ali estavam, parecia enganar-se com a possibilidade de que algo seria de fato frutífero em tudo aquilo, entretanto, sentia-se em casa. Havia muito que não conseguia circundar-se de um ambiente familiar, ainda que tão alternativo quanto aquele e percebia que precisava disso, o aconchego e carinho maternais lhe faziam tanta falta quanto o que mais almejava naquele momento: que um dia conseguisse ser tão feliz com seus próprios correlatos.
O desequilíbrio o fazia querer mais e mais aquele abraço apertado e distante, sabia agora que podia dá-lo, enfim havia se infiltrado em camadas mais interiores daquele ser que tanto apreciava e que parecia precisar de tanto cuidado. Logo foi agradecendo-lhe, pela oportunidade de convívio que toda a situação havia proporcionado, o fato é que queria agradecer por mais, desejava dizer o quanto aquilo era importante e que se sentia feliz por haver partilhado seus momentos de intimidade tão únicos.
Agora podia entender as duas faces da moeda, na verdade, de duas moedas: a sua e a de outrem; quatro faces então. Seriam iguais? Diria que não, porém muito parecidas sob o espectro do mundo obscuro dos sentimentos verdadeiros.

[+] Don Patridge - Breakfast on Pluto
[+] The Cranberries - Ode to my family

[Bru, nosso].

terça-feira, 17 de junho de 2008

Dos encaixes.

Tinha a sensação de que as três peças nunca seriam compatíveis, ainda que seus encaixes fossem perfeitos e que a imagem que formavam fosse assustadoramente real.
Assim começou a desmembrá-las, de uma forma ou de outra, antecipando aquilo que tomava como inevitável, forçando-se a aceitar a imutabilidade de algumas situações. Por orgulho, nunca disse a ninguém, mas amava com sinceridade as três partes juntas, gostava do fato de que as falhas e saliências pudessem completar-se tornando forte um conjunto que tinha sido frágil.
Sentia agora que a fragilidade voltara rápido demais, ainda que tomasse como certeza que o mundo um dia a traria. Lembrou como tudo tinha começado com vinho e lágrimas derramados, via o fim com vodca e gargalhadas soltas.
Assim, disse adeus ao quebra-cabeça, derramou o derradeiro líquido sobre aquilo que restava, riu e desejou que os terços seguissem felizes ralo abaixo.
Ouviu um riso distante,um eco da tubulação, que logo se converteu em pranto.

[+] Rachel Yamagata - I wish you love

[Rê, Bru; nosso].

domingo, 20 de janeiro de 2008

Road trip.

Ia, ao volante, em direção ao pôr-do-sol com seu objeto de afeto ao lado. Gesticulava ao som de The Cure enquanto tentava não se perder no caminho para aquele que havia escolhido como seu destino passageiro; sim, porque destino se escolhe e se faz seguro pela ilusão da certeza. Gostava da sensação da luz que o aquecia e o cegava parcialmente, de estar solto no trajeto eleito, de ter a base sólida do antigo amor recente e de ser feliz naquelas horas tão passageiras. Avistou a entrada, volteou-se à direita e retornou à aspereza daquele asfalto que se encontrava abaixo de seus pés e havia estado tão distante a minúsculos instantes atrás.

[+] Chico Buarque - João e maria

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ócio.

A carne atiça o instinto voraz de quem está à mercê da mão por muito tempo. O toque gélido da lâmina atormenta a mesma mão que seduziu com o mesmo toque a mesma carne que um dia esteve a sua mercê. A mesmice do toque um dia entediou a carne, que deixou de preferir a mão e se entregou à lâmina. A mesma lâmina fere a mão, a carne, o toque. O toque ferido torna a mão suja e delibera que a dor é melhor que o afeto. O afeto, por sua vez, com seu orgulho ferido, decide pôr um fim à palhaçada das loucuras reverberantes correspondentes a você, que mais nada tem a fazer.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Perspectiva maternal.

O ventre doía-lhe. Não podia compreender como aquelas palavras desferidas por alguém que tanto amava podiam causar-lhe tamanho dano. Seria a dor do parto? Sim, estava segura. Suplicava silenciosamente por auxílio e a verborragia diante dela não acatava seus gritos. Desesperada, decidiu fingir-se de muda, morta talvez. Inexpressiva, fitava o nada, como se criança fosse, e deixava-se levar pelo ruído bonito que as palavras duras produziam. Subitamente, a cachoeira de sons se transformou num silêncio infinito, um grande vazio que até hoje não consegue explicar; está a pairar por esse abismo, onde tenta nada tocar, para que não se desperte e atribua à consciência seu devido pesar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Follow the flow.

"ô, chuva vem me dizer"
devaneios alheios à realidade enquanto o som faz os tímpanos vibrarem, fluxos livres, inconscientes.
"se acabar meio abandonado"
por um grande amor, já não chora mais. começo de histórias que poderiam ter sido e são, na realidade, fora dos caracteres perdidos. um grande amor já tem, um grande amor mantém.
"sometimes i feel so happy"
embora cansado, sim, "so happy". o que me faz falta? nada, além de dinheiro. papai noel, quero milhões de natal.
"linger on your pale blue eyes"
e tão bonitos olhos e tão grande felicidade me trazem e tão azuis são, que se tornam verdes. e tão profundos são, que me perco neles, e tão maravilhoso é perder-me e tão extraordinário o conjunto que é.
"solidão é lava que cobre tudo"
chocolate meio-amargo, jiló, desilusão.
"danço eu, dança você na dança da solidão"
uma cumbia, uma salsa, o sambinha da filosofia, o passado.
"não me esqueço do passado"
ah, eu me esqueço! graças ao bom Deus.
beijosdesliga.

[+] Marisa Monte - Segue o seco
[+] Marisa Monte - Pale blue eyes
[+] Marisa Monte - Dança da solidão

terça-feira, 14 de agosto de 2007

sábado, 28 de julho de 2007

Contando as horas.

E as estrelas no céu nublado.
O grande truque da saga é você, que tornou a luz dos astros desnecessária, que livrou-me da calefação artificial e me fez tão ridiculamente piegas que até Álvaro de Campos teria orgulho.
A dominação era iminente, abri as portas, você entrou. Agora tento envolvê-lo no meu cárcere, recebendo a enorme surpresa de que não preciso prendê-lo; de certa forma também me adentrei em suas entranhas metafísicas e aí me fixo com minhas ventosas insaciáveis de você.
Meu caro, Fizeste-me a Elucidação Lacônica, o Ímpeto Peremptório e, entretanto, Errante.

[+] Adriana Calcanhoto - Fico assim sem você

terça-feira, 10 de julho de 2007

Me creí todos tus cuentos.

Se nota, mi sonrisa se ve algo cansada y mis ojos ya no tienen la visión que solían tener. Cúando las canciones de amor ya no te suenan, buscas lo que no posuyes, haciendo lo que no quieres, para conseguir lo que nunca te va a alcanzar: vente, pasión!

[+] La quinta estación - Tu peor error

quinta-feira, 5 de julho de 2007

É tão lindo.

Por que as pessoas têm de ser tão complicadas?
beigosreflitä.

[+] Shakira - Underneath your clothes

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A morada.

Uma caixa, um cubículo, uma jaula com portas, janelas e passes livres de entrada e saída. Tudo é possível, tudo é perfeitamente plausível e real. Seu sonho realizado, sua agonia constante... A liberdade é tão sólida que se faz sentir pelo toque e, sim, é áspera, arranca a epiderme sensível de quem nunca se deixou encostar, de quem sempre fingiu ter tudo que queria e sempre foi inseguro demais para exibir sua ambição tola. Tolice, que o traz ao chão quando se vê voando entre as nuvens macias. Inexperiência, que o ilude com tudo o que é maior ou aparentemente inofensivo. Rebeldia, que o leva adiante. Medo, que freia abruptamente todas as vontades imediatas. Solidão, que revela o estado natural, a essência, toda vulnerabilidade que pode-se ter.
Felizmente nesses casos, a chaga nunca é tão funda que não possa ser curada, logo a casa está cheia e a carceragem própria se encerra em sua melancolia tão infundada quanto um cigarro que se queima em vão.

[+] Al Green - Ain't no sunshine when she's gone